O choque sobre os mercados e a crise de confiança são as únicas certezas que se têm com as perdas geradas pela saída do Reino Unido da União Europeia (UE). No mais, qualquer afirmação acerca do futuro do Reino Unido, da UE, do comércio internacional e do impacto dessa decisão histórica no Brasil são meras suposições. A única certeza que se tem por hora é que a volatilidade dos mercados estará à mercê das incertezas que pairam sobre o cenário mundial após 43 anos de “casamento” comercial, legal e administrativo entre os britânicos e os demais países do continente europeu. Perde o Reino Unido, perde a UE.

O Brexit (saída britânica) está intimamente correlacionado à perda de boa parte da influência do Reino Unido dentro da União Europeia na última década por não atuar de forma ativa na busca por soluções para a crise do euro, e mais recentemente, para a crise dos refugiados. Com sua saída da UE é muito provável que o prestígio do Reino Unido na Europa e no cenário mundial diminua ainda mais.

Grande parte da influência global do Reino Unido está ligada ao seu poder de veto no Conselho e no Parlamento Europeu, assim como da sua influência informal na Comissão Europeia e na formação de alianças com outras nações. Fora da UE, o Reino Unido perderá créditos na hora de assinar acordos bilaterais ou fazer grandes transações econômicas e verá seu peso diplomático ser reduzido. O país provavelmente continuará a ser um parceiro militar significativo para os Estados Unidos, mas pode encontrar dificuldades para concretizar objetivos internacionais ou não ser a primeira escolha dos EUA para parcerias não militares.

Além de perder poder individual como país, é consenso que a saída do Reino Unido da União Europeia diminuirá o poder do bloco no cenário mundial. Ao lado da Alemanha e da França, o Reino Unido é uma das principais potências europeias e sua ausência na UE significa, além da perda de influência na política externa, uma carência em termos militares, já que os britânicos são responsáveis pelo quinto maior gasto militar do mundo e os primeiros no bloco.

Compara-se a saída do Reino Unido do bloco à extinção de uma das bases do tripé que sustenta a União Europeia: Alemanha, França e Reino Unido. São as três economias mais fortes e representativas da UE e tirar uma delas representa desestabilizar toda a legitimidade da UE, a qual, em si, será econômica e politicamente danificada. O bloco enfrentará a saída de não só sua segunda maior economia, mas também um membro com poder de veto no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, que carregará consigo cerca de um sexto de seu rendimento econômico.

Igualmente, o Brexit poderá motivar outras nações a convocar referendos para deixar o bloco, enfraquecendo todo o sistema e hegemonia construídos ao longo de meio século. Holanda e França já sinalizaram intenção de referendar suas presenças na UE. Uma possível onda de retirada de países-membro do bloco colocaria em xeque a própria existência da União Europeia.

Brasil

O Brasil, por sua vez, poderá eventualmente e apenas marginalmente se beneficiar com a saída do Reino Unido da UE, porque a partir de agora poderá exportar para os britânicos produtos primários que hoje sofrem algum tipo de impedimento para entrar na União Europeia. Contudo, tal benefício seria apenas marginal, sem efeitos práticos significativos, dado o fato de o Reino Unido não ser um grande parceiro comercial do Brasil e assim não ter tanta influência sobre nosso fluxo de comércio.

Em maio de 2016, o Brasil exportou US$ 256 milhões em produtos para o Reino Unido, o que equivale a apenas 1,4% do total de exportações brasileiras no mês, segundo dados do Mistério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços. Já o Reino Unido exporta principalmente para os EUA, a Alemanha e os Países Baixos, enquanto suas importações vêm sobretudo da Alemanha, da China e dos EUA. Por outro lado, se a União Europeia perder força, aí sim poderemos sentir algum impacto significativo no Brasil. Em 2015, o Brasil exportou US$ 34 bilhões em produtos para países da União Europeia, o que significa 17,7% do total de exportações do país no ano, segundo dados do Mistério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços.

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