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Resiliente, atividade se posiciona incisiva e PIB fica mais perto de 5% em 2021

A resiliência da atividade econômica brasileira frente à pandemia tem se consolidado, apesar dos riscos iminentes: inflação, crise fiscal e desemprego. A leitura do PIB no primeiro trimestre deste ano, de +1,2% contra o último trimestre de 2020 veio acima das perspectivas de mercado e da REAG, consagrando vetores relevantes que sustentam a retomada: puxada da atividade agropecuária, a importância da chamada “poupança circunstancial”, forte e contundente adaptação dos setores à pandemia e ganhos de produtividade do trabalho com aumento do investimento. Apesar de desde o 4T20 já minimizássemos do nosso cenário o risco do “fiscal cliff” advindo do término do auxílio emergencial, muito em função da dinâmica benigna do crédito (alta liquidez) e do ciclo global de commodities, a intensificação da pandemia na segunda onda não nos permitia ainda eliminá-lo por completo. Hoje, contudo, entendemos que esse risco se mostrou superestimado, muito por conta da eficiente adaptação das empresas e famílias frente a pandemia e fortemente porque a mobilidade, na prática, caiu menos do que então era esperado. Face a isso, revisitamos nossa estimativa para o PIB de 2021 para 4,8%, apesar de ainda mantermos inalterada a projeção de 2022 em 1,8%. Mas em linhas gerais, hoje é mais assertivo afirmar que o crescimento do PIB brasileiro deverá fechar o ano muito próximo de 5% do que dos 4% projetados no início do ano.

 

A resiliência da nossa economia nestes três primeiros meses do ano foram se confirmando paulatinamente muito por conta de dados associados ao setor formal: arrecadação de impostos, crédito, mercado de trabalho (Caged) e seguro-desemprego. A despeito de termos registrado perda de renda no mês mais crucial da segunda onda da pandemia, em março, e da ainda alta taxa de desemprego, a renda agregada do trabalho, somada às transferências recentes, seguiu à frente com tendência de recuperação. Adicionalmente, observamos significativa aceleração no fluxo global a partir de fevereiro, com acréscimo proeminente dos preços das commodities e retomada da atividade nas economias centrais e na China. Esse cenário tem impulsionado a demanda local, com destaque para os setores do agronegócio e extrativista mineral, com impactos adjacentes a outros setores da economia como a indústria e a construção civil. O PIB do setor agropecuário cresceu 5,7% no 1T21 x 4T20, ancorado na produtividade e no bom desempenho das lavouras de soja, da pecuária bovina e nas exportações do setor, enquanto a indústria apresentou alta de 0,7% no período.

Destacamos ainda a relevância da “poupança circunstancial” no bom resultado do PIB do primeiro trimestre deste ano, a despeito do gargalo deixado pelos estímulos emergenciais no início de 2020. Enquanto grande parte da população mais dependente do trabalho presencial viu a renda assistencial, muitas vezes acima dos ganhos habituais, desaparecer nos primeiros três meses do ano, a “poupança circunstancial” da população que conseguiu manter seus trabalhos remotamente, contribuiu significativamente para a retomada econômica. Ou seja, os recursos poupados compulsoriamente pela população que conseguiu manter seu nível de renda, ao ter deixado de viajar e ao ter reduzido significativamente seus gastos com lazer por exemplo, contribuiu para manter a roda da atividade econômica se movimentando. Isso posto, destacamos o crescimento do setor de serviços no 1T21, com alta de 0,4% contra o 4T20, enquanto o consumo das famílias recuou 0,1% no período. Adicionalmente, observa-se que os investimentos (Formação Bruta de Capital Fixo -FBCF) apresentou alta de 4,6% no 1T21 x 4T20. Ainda que descontando o efeito “Repretro” (regime aduaneiro especial para importação de ativos da indústria de exploração de petróleo), o equivalente a um terço desse resultado, a alta de cerca de 3% no investimento foi bastante significativa.

Por assim dizendo, apesar do otimismo embalado nos números do PIB no primeiro trimestre do ano, esse resultado advém basicamente do mercado de trabalho formal qualificado, de grandes empresas engajadas nas cadeias globais (principalmente aquelas atreladas às commodities agrícolas e minerais) e da brandura às restrições da mobilidade social. Grande parte da população brasileira e grande parte das pequenas e médias empresas locais estão fora desse otimismo de crescimento econômico. Paralelamente, a qualidade desse crescimento tem dois pontos antagônicos. O positivo é fruto dos ganhos de produtividade, com queda no custo unitário do trabalho, e o negativo diz respeito ao acúmulo de estoques, que tiveram peso relevante na leitura do PIB no 1T21, que provavelmente não se repetirá.

Apesar de ter superado as expectativas de mercado, o resultado do PIB nos primeiros três meses do ano não altera o quadro de ajuste parcial da taxa básica de juros do Banco Central, como reforçado na última ata do Copom. Os membros do Copom têm reiterado com frequência que aguardam uma dinâmica mais benigna da atividade para retirar os estímulos monetários, inclusive ao sinalizar há algum tempo projeções do PIB acima do esperam os economistas do mercado. Mantemos nossa projeção da Selic em 6,0% a.a. ao final de 2021, podendo chegar a 6,5% em 2022.

Mantemos o sentimento de cautela, apesar da brisa de otimismo enveredada pelo resultado do PIB no 1T21. A inflação e as crises sanitária e hídrica são ainda inimigos constantes e persistentes. A pandemia ainda não acabou, assim como a vacinação tem se arrastado e batido de frente a entraves políticos. Ademais, ainda pairam dúvidas sobre o que enfrentaremos acerca do impacto que os níveis baixos dos reservatórios resultarão sobre a atividade. E complementarmente, seremos cautelosos no que diz respeito à inflação, que deve continuar a pressionar o teto da meta. A REAG projeta alta de 5,8% para o ano de 2021.

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