Compartilhe este post

IPCA de dezembro requer manutenção do gradualismo da política monetária

Em dezembro, o IPCA apresentou variação de 0.56%, encerrando 2023 com alta de 4,6%. Foi a primeira vez nos últimos três anos que a inflação fechou o ano dentro do intervalo de tolerância estabelecido pelo Conselho Monetário Nacional.

Embora ainda distante do alvo central para a meta de inflação (3,25% para o ano 2023), há bons motivos para comemorar o resultado. A inflação havia encerrado o ano anterior em 5,8%, patamar que trazia bastante ceticismo quanto a capacidade da autoridade monetária de garantir o cumprimento da meta sem uma forte desaceleração da atividade econômica.

De fato, como é possível observar nos Gráficos 1 e 2 abaixo, as expectativas extraídas da pesquisa Focus do Bacen junto aos economistas de mercado indicavam no início de 2023 que a inflação encerraria o ano acima de 5.0%, enquanto o crescimento do PIB teria um desempenho medíocre, inferior a 1,0%.

Como se sabe, não foi isso o que ocorreu. Ainda que beneficiado pelo efeito transitório da supersafra agrícola, o PIB provavelmente encerrou o ano de 2023 com alta ao redor de 3%.

Essa desinflação “indolor” é um atestado inequívoco da competente condução da política monetária por parte do Banco Central, que resistiu às pressões por um afrouxamento prematuro e agressivo da Selic, optando por uma estratégia conservadora que privilegiou a ancoragem (ainda que parcial) das expectativas de inflação. Como fica claro a posteriori, a aposta se mostrou vitoriosa, viabilizando uma queda consistente da inflação e abrindo espaço para um longo ciclo de alívio monetário, que se estenderá por boa parte de 2024.

Outros fatores, contudo, também ajudam a explicar o surpreendente alívio dos preços ao longo do último ano. O principal deles diz respeito à normalização das cadeias de suprimento globais após a grave crise de produção e logística em decorrência dos choques da Covid-19 e da Guerra da Ucrânia. Essa normalização vem produzindo um forte recuo da inflação dos bens industriais na maior parte do mundo.

Não tem sido diferente no Brasil, com o grupo já registrando deflação quando observamos a variação média (dessazonalizada) nos últimos três meses.  Ao que tudo indica, esse cenário favorável deverá permanecer em 2024. As perspectivas de valorização adicional do Real com a proximidade do alívio monetário nos EUA, o recuo dos preços do petróleo e demais matérias-primas, além das pressões baixistas dos preços de bens intermediários indicam que o grupo continuará contribuindo decisivamente para a desaceleração do IPCA ao longo do ano.

Mas não temos apenas boas notícias. Na contramão dos preços industriais, há sinais de que o longo processo de desinflação dos serviços está chegando ao final. Após atingir a mínima recente em setembro, a inflação média trimestral (dessazonalizada e anualizada) dos chamados “serviços subjacentes” voltou a acelerar, alcançando para 4,2% em dezembro – patamar significativamente acima da meta de inflação de 3,0% para 2024.

Por ser fortemente associada ao estado da atividade econômica, a inflação dos serviços subjacentes fornece informação importante sobre eventuais pressões de demanda e, por essa razão, recebe atenção especial por parte do Banco Central.

A reversão na tendência de desinflação do grupo é possivelmente um sinal de que a política econômica, em seu conjunto, tenha caminhado para o terreno expansionista ao longo do ano passado. Esse diagnóstico ganha maior consistência quando se coloca em perspectiva o expressivo impulso na demanda agregada proporcionado pela PEC da Transição (com o aumento de R$180 bilhões nos gastos do governo) e a forte retomada nos desembolsos do BNDES.

Como o Banco Central deve proceder diante dessa crescente discrepância na dinâmica dos principais grupos de preços? Por um lado, a perspectiva de recuo adicional da inflação geral, beneficiada pelo cenário benigno para os preços industriais, garante as condições para que a Selic avance no território de um dígito, aterrizando possivelmente ao redor de 8,5% ao final do ciclo. Contudo, o próprio afrouxamento adicional da política monetária, além da manutenção do caráter expansionista das políticas fiscal e parafiscal, aumentam as incertezas quanto à convergência da inflação de serviços.

Ao permitir um monitoramento mais adequado dos riscos que colocam para o processo de convergência da inflação, além de proporcionar a persistência da ancoragem das expectativas de inflação, a abordagem gradualista continua sendo a opção superior. É improvável (e desaconselhável) que o Copom acelere o ritmo de cortes da Selic.

Compartilhe este post

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Preencha esse campo
Preencha esse campo
Digite um endereço de e-mail válido.
Você precisa concordar com os termos para prosseguir

5 × três =