Compartilhe este post

Carta Mensal – Setembro de 2023

Comentário Econômico

Por: Marcelo Fonseca, economista-chefe da REAG Investimentos

 

Cenário Global

 

A forte alta dos juros norte-americanos foi novamente o principal destaque no mês passado. Apesar da melhora na dinâmica recente da inflação e a consequente manutenção das
taxas básicas de juros na reunião do Federal Reserve (FED) de setembro, a impressionante
resiliência da economia frente ao aperto monetário em curso vem reforçando a mensagem
do banco central de que os juros permanecerão estáveis por um longo período. Como resultado, após a forte correção em setembro, a curva de juros praticamente eliminou a precificação de cortes nas taxas das fed funds no próximo ano.

Além desse realinhamento na parte curta da curva, assistimos concomitantemente uma
elevação acentuada nos rendimentos dos títulos de prazos mais longos, com a taxa de 10
anos superando a marca de 4,5% – patamar mais elevado desde 2007. Como argumentamos em nossa última Carta Mensal, embora existam fatores transitórios, o principal responsável por esse movimento nos parece ser a substancial deterioração da posição fiscal norte-
-americana, cujo déficit nominal deverá se aproximar de 8% em 2023 – sem perspectivas de
correção de rumo nos próximos anos.

Essa combinação de juros de curto prazo mais altos, resultado de uma taxa neutra provavelmente mais elevada, e maior “prêmio a termo” implicam em condições financeiras substancialmente mais restritivas, compondo assim um ambiente para a alocação do capital significativamente mais desafiador do que nos anos seguintes à Grande Crise Financeira.
É por essa razão que continuamos cautelosos com as perspectivas para economia global a
médio prazo. Embora os dados recentes forneçam suporte à corrente do “soft landing”,
acreditamos que o choque monetário deverá cobrar seu preço sobre a atividade econômica
no próximo ano, uma vez que o estoque de poupança das famílias, acumulado pelas massivas transferências de recursos públicos durante a pandemia, tiver se exaurido. Antecipamos, portanto, uma desaceleração importante do crescimento em 2024.

 

Cenário Brasil

 

A manutenção da meta de déficit primário zero para 2024 na LOA (Lei Orçamentária Anual)
não encerrou o debate sobre a viabilidade desse objetivo. Ao contrário, diante das dificuldades do governo em implementar a agenda de elevação de receitas, seguem as pressões
para que o Ministério da Fazenda aceite alguma flexibilização naquele número. Apesar da
resistência, acreditamos que a realidade irá se impor, e em algum momento nos próximos
meses a meta de primário deverá ser oficialmente alterada. Continuamos bastante céticos
com o modelo de ajuste fiscal proposto, baseado exclusivamente nas receitas, e acreditamos que o governo logrará obter um montante bastante inferior aos R$ 170 bilhões de receitas adicionais projetadas no orçamento de 2024.

O Copom deu continuidade ao ciclo de afrouxamento monetário, com novo corte de 0,50%
na taxa Selic. O destaque coube à mensagem de cautela por parte da autoridade monetária,
que voltou a sinalizar não haver espaço para aceleração do ritmo de cortes. A elevação dos
preços internacionais do petróleo, os riscos climáticos sobre os preços dos alimentos representados pelo El Ninõ, a pressão sobre as curvas de juros globais, e as incertezas fiscais
domésticas não permitem alteração na estratégia gradualista do BC. Adicionalmente, esses
fatores colocam um risco altista para nossa projeção de 9,5% para a taxa Selic ao final do
ciclo, no próximo ano.

 

Comportamento dos mercados no mês
Por: Saulo Holzmann, estrategista da REAG Investimentos

 

Comportamento dos mercados no mês

Muito similar ao mês passado, setembro também foi um mês de aversão ao risco global,
influenciado pelo temor de, ainda, possíveis aumentos de juros nas economias
desenvolvidas.

Apesar da inflação global, principalmente nos EUA e Europa, terem dado sinais de
arrefecimento, a atividade ainda aquecida e uma alta recente no preço do petróleo fez com
que o cenário róseo de “soft landing” (pouso suave na atividade para debelar a inflação, sem
criar uma recessão) fosse questionado novamente. Com isto, com raras exceções, as
bolsas globais em dólar, devem fechar novamente em queda. Os juros futuros nos EUA
fecharam o mês com a taxa próxima a 4,6 % a.a., provocando novamente perdas nos
mercados de renda fixa (bonds).

O Brasil sofreu parcialmente com este cenário externo e também com a eterna discussão
fiscal, apesar da atividade e da inflação terem mostrado dados positivos. No mercado local,
a Bolsa, medida pelo Ibovespa, fechou em alta. Já o real e a curva de juros tiveram resultados
negativos no mês, devido a combinação de notícias externas e internas.

 

Cenário Global

A principal influência no mercado global este mês, em termos de precificação de ativos, foi
a mudança de visão do mercado sobre decisões futuras do FED (BC americano) sobre a taxa
de juros. Uma boa parcela dos investidores apostava com em uma queda no juro americano
(hoje em 5,5% a.a.) já para o próximo ano, visão essa que possivelmente foi alterada dada os
últimos discursos do presidente do FED, Jerome Powell, sustentados por dados de
atividade, desemprego, e maior temor com volta nas pressões inflacionárias dada a recente
subida no preço do petróleo (hoje rodando em torno de $95/barril). Esta visão mudou, e,
devemos ver, como mencionado nessa Carta Mensal diversas vezes, uma taxa de juros
global mais alta, por mais tempo, principalmente após os Bancos Centrais das economias
desenvolvidas não alterarem sua meta de inflação, e reiterarem sua posição de trazê-la de
volta para o patamar de 2%. a., mesmo que mantenham a taxa de juros mais alta no longo
prazo.

 

Cenário Brasil

O cenário global influenciou o local, e apesar de a inflação no Brasil estar em queda e a
atividade sendo revisada para cima, a expectativa com as promessas do governo na área
fiscal ficaram questionadas este mês. Os R$ 168 bilhões necessários para zerar o déficit ano
que vem parece cada vez mais inalcançável, pois além das dificuldades de aprovação de
novas fontes de receita (impostos, desonerações etc.) pelo Congresso, os números
recentes de arrecadação diminuíram, frustrando os mais otimistas. De positivo, temos uma
melhor comunicação entre Governo e Banco Central na relevância do tema fiscal para a
inflação, o crescimento e a queda do Risco Brasil. Mesmo com este cenário um pouco mais
conturbado nos últimos dois meses, a Reag Investimentos continua com a previsão de
fecharmos o ano com uma SELIC de 11,75% a.a.

 

Indicadores do Mês
IBOVESPA: +0,71%
IGP-M: +0,37%
DÓLAR: +1,60%
CDI: +0,97%

 

 

Compartilhe este post

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Preencha esse campo
Preencha esse campo
Digite um endereço de e-mail válido.
Você precisa concordar com os termos para prosseguir

4 × cinco =