Compartilhe este post

Carta Mensal – Junho de 2023

COMENTÁRIO ECONÔMICO
Por
: Marcelo Fonseca, economista-chefe da REAG Investimentos

Diante de um quadro inflacionário ainda desafiador, o aperto monetário nas economias avançadas prossegue firme. O Banco da Inglaterra voltou a acelerar o ritmo de altas para 50 b.p. em sua última reunião, indicando que a taxa de juros poderá se aproximar de 6% a.a. em meados do ano. Na Zona do Euro, tampouco há sinais de proximidade com o final do ciclo, e as apostas migram para uma taxa terminal ao redor de 4% a.a..

Já o Federal Reserve (Fed) confirmou a interrupção previamente sinalizada no processo de aperto, mas indicou que esta deverá ser uma pausa curta. A mediana das projeções dos membros do FOMC indica que as fed funds deverão encerrar o ano em 5,6% a.a.., com ao menos duas altas adicionais sendo altamente prováveis, segundo o próprio presidente do banco central, J. Powell.

Esse choque monetário, que levará os juros nas economias avançadas aos maiores patamares em duas décadas, ocorre em meio a uma notável resiliência da atividade, com o mercado de trabalho na maior parte do globo operando acima dos níveis de pleno emprego.  Após grande ceticismo inicial, cresce a confiança de que o Fed será capaz de promover a convergência da inflação com um “soft landing” da economia. Embora acreditemos que o aperto monetário em curso ainda cobrará o seu preço sobre o crescimento, os sólidos fundamentos da economia americana, em meio a sinais de reaceleração da atividade, fazem com que a recessão se torne um cenário cada vez menos provável neste ano.

No Brasil, o crescimento econômico voltou a apresentar bons resultados com a divulgação do PIB do primeiro trimestre. A expansão de 1,9% na comparação trimestral superou largamente as expectativas dos analistas. É bem verdade que parcela relevante da contribuição para o resultado decorreu do setor agropecuário – expansão trimestral de 21,6% – com os componentes mais sensíveis ao ciclo econômico confirmando o quadro de arrefecimento gradual.

Entretanto, temos em 2023 mais um ano em que as projeções dos analistas para o crescimento do PIB, inicialmente modestas, são consistentemente revisadas após fortes surpresas positivas com a divulgação dos dados – após oscilar abaixo de 1% nos primeiros meses do ano, a mediana da Pesquisa Focus do Banco Central já supera 2%. Esse quadro tem despertado a avaliação de que após oito anos seguidos de reformas econômicas profundas – entre elas, a reforma da previdência, a reforma trabalhista, a independência formal do Banco Central e a introdução de marcos regulatórios robustos nos setores de infraestrutura – é possível que seus impactos positivos sobre o crescimento potencial tenham começado a se materializar de maneira mais concreta.

Com o progresso recente no campo da inflação e a perspectiva de manutenção das metas de inflação em 3% a.a. (posteriormente confirmada pelo CMN), o Banco Central avançou diversas casas para dar início ao processo de flexibilização monetária. A ata da reunião do Copom comunicou que a avaliação “predominante” no comitê vislumbrava a possibilidade de sinalizar um corte de juros já na próxima reunião. Acreditamos que a persistência dos núcleos de inflação ainda em níveis elevados, e a maior resiliência da atividade econômica, levarão o BC a optar por iniciar o ciclo de forma parcimoniosa, com um corte modesto de 25 b.p. em agosto. Projetamos que a Selic encerrará o ano de 2023 em 12%, com a taxa terminal alcançando 9% em meados de 2024.

A reforma tributária começa a ganhar forma, após a divulgação do parecer do relator na Câmara dos Deputados, Aguinaldo Ribeiro (PP-PB). A proposta prevê a substituição de tributos indiretos por um imposto sobre valor adicionado (IVA) dual – uma contribuição federal unificando o PIS, Cofins e IPI, é um imposto “regional”, em substituição ao ICMS e o ISS. Embora o texto preveja uma implementação bastante gradual, o novo modelo permitiria ao país evoluir para um sistema tributário de maior simplicidade, transparência, equidade, e menor custo de conformidade. O crescimento econômico certamente seria beneficiado pela melhor alocação de recursos, aumento da produtividade e diminuição do risco fiscal. Embora permaneçam divergências entre os representantes dos entes federativos, as perspectivas de aprovação do reordenamento do sistema tributário nacional são as melhores nas últimas décadas.

 

COMPORTAMENTO DOS MERCADOS NO MÊS
Por:
Saulo Holzmann, estrategista da REAG Investimentos

Estamos fechando o primeiro semestre do ano em um ambiente favorável para os mercados de risco. A principal razão para este bom momento é a convicção dos investidores de que as economias americana e mundial estão caminhando para o chamado “soft landing”, ou seja, ocasião em que os Bancos Centrais estão sendo hábeis em trazer a inflação global para baixo sem criar uma queda agressiva na atividade econômica. Isto cria um ambiente favorável para uma parada na subida dos juros e uma eventual baixa no ano que vem, e assim uma retomada eventual do crescimento mundial. O mês de junho foi de alta generalizada nas bolsas, com raríssimas exceções. O Brasil seguiu a tendência global, ajudado por boas notícias internas sobre inflação e atividade, além de um maior alinhamento entre governo e Banco Central, e a perspectiva da votação da reforma tributária. Neste mês, a bolsa, representada pelo Ibovespa, mais uma vez fechou no positivo, enquanto o Real continuou a se valorizar perante o dólar e o euro. O destaque, entretanto, no mês e no ano continua a ser o fechamento da curva futura de juros, ajudado não só pelo cenário externo, mas por uma melhora da perspectiva fiscal interna e por uma inflação mais baixa do que o esperado.

 

CENÁRIO GLOBAL

O destaque do mês de junho foi a “pausa” do Banco Central americano depois de uma das mais fortes subidas de juros na história daquele país. Entretanto, o FED (BC americano) ressaltou que ainda pode vir a subir a taxa duas vezes, dependendo dos indicadores do centro da inflação que ainda se encontram resilientes, além dos números de atividade e de desemprego/custo salarial. Mesmo assim, o mercado já vê sinais mais claros de fim de ciclo devido à inflação com tendência de queda, muito ajudado pela baixa nos preços das commodities. Este cenário de “soft landing” sempre foi nosso cenário básico desde o final do ano passado. Entretanto, ainda vemos que os BCs manterão os juros altos por mais algum tempo, até estarem confortáveis com o nível de inflação girando em torno de 2% (hoje em torno de 4%), gerando possíveis revisões para baixo da expectativa de crescimento global para 2024.

 

CENÁRIO BRASIL

Com a aprovação do novo modelo de arcabouço fiscal e a possibilidade de votação de parte da reforma tributária antes do recesso parlamentar, houve uma melhora no cenário local não vista desde o início do terceiro mandato de Lula. Apesar das críticas sobre o otimismo nas projeções dos técnicos do governo sobre o crescimento esperado, e a visão de que será necessário aumentar a arrecadação (leia-se aumento de impostos) para atingir as metas apresentadas, não há como não se surpreender positivamente com a melhora do cenário local em relação à expectativa na virada do ano. E com a inflação mais baixa também no Brasil, ajudada pelo atacado (preços de energia, industriais) e um real mais valorizado, continuamos a ver perspectivas para uma contínua melhora na curva de juros futura, que será mais contundente quão mais críveis forem os números de receita fiscal e a velocidade na implementação da reforma tributária a ser aprovada. Também, com isto, aumentará a pressão sobre o BC para a tão esperada queda dos juros (SELIC), já que a melhora fiscal diminui a dependência da política monetária. Neste momento os mercados precificam uma queda de 0,50% na Selic já em agosto, apesar do discurso conservador do Banco Central. No ano, todos os Índices de Mercado Anbima (pré e indexados à inflação) já estão acima da variação do CDI no ano (6,50% acumulado). A valorização do Real e a do Ibovespa também já superam a variação do CDI no ano.

  • Indicadores do Mês:

 

Ibovespa:           + 9,00%

Dólar:                  – 5,60%

CDI:                     + 1,07%

IGPM:                  – 1,93%

 

Compartilhe este post

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Preencha esse campo
Preencha esse campo
Digite um endereço de e-mail válido.
Você precisa concordar com os termos para prosseguir

15 − quatro =