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Carta Mensal: Dezembro 2023

Comentário Econômico

Por: Marcelo Fonseca, economista-chefe da REAG Investimentos

 

CENÁRIO INTERNACIONAL

O otimismo nos mercados globais se estendeu em dezembro, com a confirmação por parte do
Federal Reserve (Fed) do fim do longo ciclo de alta de juros. O “pivô” na estratégia de política monetária, que até recentemente apontava para apertos adicionais, juntamente com a resiliência da atividade econômica, ajudou a reforçar ainda mais a percepção de que a economia norte-americana
caminha para o “pouso suave”, fornecendo mais combustível para o forte rali dos ativos de risco
observado nos últimos meses.

Virada a página do aperto monetário nas principais economias avançadas, a questão central que se
coloca no início do novo ano diz respeito ao momento de um eventual ciclo de afrouxamento dos
juros. Esse tema ganhou especial destaque após a última reunião do Fed, quando o presidente J.
Powell admitiu que a autoridade monetária poderia dar início nos cortes das fed funds ainda que a
inflação não tenha convergido totalmente para a meta de 2%. A surpreendente declaração levou
investidores e analistas a contemplarem a possibilidade de queda nos juros já no primeiro trimestre
de 2024.

Entendemos que a melhora consistente do cenário inflacionário nos últimos meses cria as condições para os principais bancos centrais, entre eles o Federal Reserve, anteciparem o início da flexibilização monetária. Entretanto, as previsões atuais (março, no caso dos EUA) nos parecem demasiadamente prematuras. Antecipamos que o Federal Reserve, o Banco Central Europeu e o Banco
da Inglaterra não devem iniciar os seus respectivos ciclos de cortes da taxa básica de juros antes do
final do primeiro semestre.

Já no lado da atividade econômica, identificamos um ambiente de maior divergência. Nos EUA, o
estado saudável do mercado de trabalho e a queda da inflação devem contribuir para uma desaceleração gradual, consistente com o tal “pouso suave”. Na contramão, o desempenho ruim da Zona do Euro e o Reino Unido nos últimos meses dão sinais de que uma recessão naqueles blocos se
avizinha, podendo se tornar realidade já no primeiro trimestre de 2024. Na China, após seguidas
decepções ao longo do ano, os estímulos recentes ao setor imobiliário eliminaram o receio de uma
espiral negativa da atividade, e deverão garantir a estabilização do crescimento econômico em um
ritmo moderado.

Ainda que o crescimento nas principais economias do globo, em seu conjunto, mostre algum enfraquecimento, o cenário que se apresenta para as economias emergentes é positivo. O progresso na
desinflação nesses países permitirá aos seus bancos centrais darem continuidade aos ciclos de
corte dos juros, elevando a resiliência dessas economias à desaceleração dos países desenvolvidos.

 

CENÁRIO DOMÉSTICO

No Brasil, a queda da inflação (em particular, dos seus componentes mais inerciais, como os serviços) vem trazendo bastante conforto para o Banco Central levar adiante o corte da taxa Selic. Diante
da perspectiva de um afrouxamento monetário nos EUA ainda no primeiro semestre, passamos a
contemplar um recuo maior da Selic, para o patamar ao redor de 9,0% ao final de 2024.

Com uma taxa de juros terminal mais baixa, a já visível perda de fôlego do crescimento deverá se
mostrar levemente mais modesta do que antecipávamos. Assim, após crescer 3,0% em 2023, o PIB
de 2024 deverá apresentar uma expansão de 1,7%.

O calcanhar-de-aquiles, contudo, continua sendo a política fiscal. Ainda que o Ministério da Fazenda tenha obtido importantes vitórias no apagar das luzes de 2023 com a aprovação pelo Congresso
Nacional dos projetos de aumento de arrecadação, a dinâmica das contas públicas ainda é preocupante. De fato, antecipamos que a meta déficit primário zero para 2024 deverá em breve ser revisada – possivelmente para um resultado negativo de 0,5% do PIB – com o resultado efetivo para o ano
superando a marca de 1,0% do PIB.

 

COMPORTAMENTO DOS MERCADOS NO MÊS

Por: Saulo Holzmann, estrategista da REAG Investimentos

 

O ano de 2023 foi, sem dúvida, um ano melhor que o esperado no que concerne ao retorno de
ativos financeiros. Independentemente de uma inflação resistente, de eventos geopolíticos e
climáticos e do medo de uma recessão, os mercados globais tiveram retorno positivos, tanto na
Renda Fixa quanto na Renda Variável. No final, os Bancos Centrais “venceram”, pois foram capazes
de reduzir a inflação com uma subida agressiva nos juros sem causar uma queda forte na atividade.
O ano de 2023 terminou com altas contundentes nas bolsas globais (SP 500 com + 24% e Nasdaq
+43%, como exemplos), com exceção da China. Na Renda Fixa, até mesmo investimentos
conservadores como a Treasury de 10 anos americana gerou retorno positivo. No mês de
dezembro, especificamente, também foi de alta nos ativos globais seguindo o bom momento de
novembro. No Brasil, os dois últimos meses foram de arrancada na bolsa e nas curvas de juros
futura, seguindo a tendência global de um discurso mais claro do BC americano sobre o fim de ciclo
de alta de juros naquele país (hoje em 5,50%a.a.). Por razões externas e internas, o retorno no Brasil
também foi melhor que o esperado neste primeiro ano de governo Lula. No ano, a bolsa fechou no
positivo (+22%), e os índices de Renda Fixa Anbima também fecharam acima do CDI (+13%) e da
inflação (IPCA) que deve fechar o ano em torno de 4,5%. O Real, mesmo com os riscos fiscais e a
entrada de um governo de esquerda, se valorizou perante o dólar (+8%) e o euro (+5%), muito
devido ao fluxo de entrada do investidor estrangeiro atraído pela alta taxa de juros local e das
exportações. Em dezembro, especificamente, as classes de ativos brasileiras seguiram a tendência
do exterior e fecharam no positivo.

 

CENÁRIO INTERNACIONAL

Olhando para frente, esperamos uma inflação global menor devido à forte puxada de juros dos
Bancos Centrais liderados pelo FED americano, que saiu de 0,25% de juros em dezembro de 2021
para os atuais 5,50%. O resultado deste esforço deverá gerar um efeito negativo: menor
crescimento global (esperado um PIB global de +2,2% vindo de +2,7% em 2023). Com eleições em
70 países em 2024, o risco geopolítico deverá gerar volatilidade nos mercados, principalmente com
a eleição americana (risco Trump) em novembro. Eventos climáticos e/ou militares também
poderão afetar o comércio mundial e representar uma volta da inflação. Com este pano de fundo,
iniciamos 2024 ainda com uma alocação nas carteiras globais mais voltada para a Renda Fixa devido
à combinação de um retorno esperado acima da inflação mundial (de +2,9%), com uma expectativa
de baixo crescimento de lucro e avaliação cara do mercado de Renda Variável.

 

CENÁRIO DOMÉSTICO

O primeiro ano do novo governo de Lula surpreendeu até os mais otimistas. Com uma economia
crescendo próximo a 3% a.a. em 2023, com inflação controlada e em processo de queda de juros antes dos desenvolvidos, o Brasil também se beneficiou dos setores agrícola e petróleo para
atrair dólares e valorizar o real. Apesar do discurso do PT, não houve reestatização da Eletrobras,
mudança da meta de inflação, substituição de Campos Neto no BC, entre outros “fantasmas”. De
prático, tivemos um novo arcabouço fiscal, aprovação da reforma tributária, melhora nos ratings de
crédito e um bom trabalho do Ministro Haddad em apaziguar conflitos entre governo (política fiscal)
e BC (política monetária). Entretanto, o risco fiscal permanece latente e pode “estragar a festa” em
2024, mesmo considerando um cenário externo positivo. Será muito difícil alcançar um déficit zero
em 2024 com os gastos atuais do governo, menor crescimento esperado (PIB +1,6%, agrícola pior),
ano eleitoral, e uma visão do Estado como propulsor do crescimento. Isto poderá limitar a queda de
juros pelo BC brasileiro (é esperado uma Selic de 9,0% para fim 2024) e diminuir o crescimento
esperado para 2025. Com isto, continua nossa preferência por títulos privados, crédito e operações
estruturadas indexados ao CDI, pois com inflação em queda (IPCA esperado abaixo de 4%), o juro
real ainda se mostra bastante atrativo sem a necessidade de as carteiras locais ficarem expostas a
riscos de mercado/volatilidade para este ano. Continuamos com alocação em Renda Variável
apenas para carteiras com perfil mais agressivo.

 

Aproveitamos para desejar um feliz 2024 a todos!

 

Indicadores do mês

  • Ibovespa             + 5,38%
  • Dólar                    + 0,74%
  • CDI                        – 1,28%
  • IGPM                    + 0,89%

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