Compartilhe este post

Carta Mensal: Novembro 2023

Comentário Econômico

Por: Marcelo Fonseca, economista-chefe da REAG Investimentos

 

CENÁRIO INTERNACIONAL

A política monetária nas economias avançadas continua sendo o tema dominante da economia global. Em novembro, o Federal Reserve (Fed) surpreendeu os mercados e sinalizou a disposição de colocar fim ao ciclo de 500 bp de altas das fed funds. Esse inesperado “pivô” do banco central norte-americano contribuiu para um forte alívio nas curvas de juros globais, estimulando o apetite a risco em direção aos mercados acionários e ativos de países emergentes.

A perspectiva de encerramento do aperto monetário nas principais economias deu fôlego extra ao cenário de “pouso suave” da economia global. Embora os analistas continuem antecipando uma desaceleração do crescimento econômico no próximo ano, o risco de recessão vai ficando cada vez mais distante. Projetamos crescimento mundial de 2,3% em 2024, pouco abaixo do ritmo de 2,6% observado em 2023.

Mantemos, contudo, o ceticismo com relação à possibilidade de cortes nos juros norte-americanos no horizonte próximo. Apesar dos avanços recentes, a inflação de serviços – principal foco de preocupação do Fed – continua flutuando em níveis distantes da meta de 2%, em um contexto de economia ainda em expansão e mercado de trabalho apertado. Dessa forma, antecipamos que o início do ciclo de alívio monetário nos EUA não deverá ocorrer antes do último trimestre de 2024.

 

CENÁRIO DOMÉSTICO

Após um início de ano de fortes surpresas positivas no âmbito do crescimento, a economia brasileira perdeu fôlego na virada do primeiro para o segundo semestre. Como antecipamos em nossas Cartas anteriores, boa parte dessa surpresa do início de 2023 se deveu a fatores transitórios, como a “supersafra” agrícola e a expansão de gastos públicos proporcionada pela aprovação da PEC da Transição. Esgotados esses efeitos, a economia agora se depara com um cenário mais desafiador.

Apesar da forte queda da inflação, o conturbado cenário fiscal deverá forçar o Banco Central a manter a abordagem cautelosa para a redução da taxa de juros. Ainda que o Ministério da Fazenda tenha obtido fôlego extra com a manutenção da meta zero para o déficit primário em 2024, essa vitória deverá ser apenas temporária. Com as projeções para o déficit primário nesse ano se aproximando de BRL 180 bi, cresce a necessidade de recursos para fechar a conta. Por outro lado, as medidas de aumento de arrecadação anunciadas pelo governo encontram cada vez mais dificuldade para obter apoio no Congresso.

À luz da provável frustração no lado das receitas, e diante da baixa de disposição política para se levar adiante um contingenciamento significativo dos gastos, o déficit primário deverá superar o patamar de 1% do PIB em 2024, empurrando a dívida pública bruta a casa dos 80% do PIB (de 76% em 2023). Esse quadro deixa pouca margem para uma queda mais agressiva da Selic – antecipamos a taxa ao final do ciclo de cortes em 9,5%.

 

COMPORTAMENTO DOS MERCADOS NO MÊS

Por: Saulo Holzmann, estrategista da REAG Investimentos

 

Depois de vários meses com razoável volatilidade nos mercados, o mês de novembro fechou com forte alta nos ativos de risco. A explicação desta melhora está alicerçada em dois temas: (i) a diminuição do contágio do conflito Israel-Hamas, e (ii) o discurso do FED (BC americano) mais favorável ao fim do ciclo de alta de juros. Com isto, a maioria absoluta das bolsas mundiais mostrou ganhos e o dólar americano caiu em relação às outras moedas, com os agentes de mercado já tentando prever quando será iniciado o ciclo de baixa de juros globais em 2024. No Brasil, apesar de notícias marginalmente negativas na parte macroeconômica, os ativos locais também foram positivamente influenciados pelo fechamento das taxas futuras de juros americano, refletindo o discurso mais “dovish” (ameno) do FED e a cristalização do cenário de pouso suave (“soft landing”) para a economia global. A Bolsa, representada pelo Ibovespa, teve forte alta, enquanto os juros futuros geraram ganhos e o Real valorizou perante o dólar e o euro. Com esta alta, o Ibovespa já ultrapassa o CDI no ano (16% contra 12%), assim como a maioria dos índices de juros (prefixados e índice de inflação), representados pelos Índices Anbima. O Real, fonte de preocupação dos investidores no final do ano passado com a troca de governo, apresenta uma valorização de 7% em relação ao dólar americano até o momento.

  

MERCADOS GLOBAIS

Com (i) a inflação global claramente em queda (mas ainda acima das metas dos Bancos Centrais dos desenvolvidos), (ii) as economias europeia e chinesa arrefecendo recentemente, (iii) os preços de commodities em queda mesmo com os recentes eventos geopolíticos e climáticos, e (iv) a perspectiva de menor crescimento econômico em 2024, os Bancos Centrais congelaram o movimento de alta dos juros. Mesmo com perspectivas de menor crescimento, não vemos sinais claros de uma recessão devido (i) ao forte mercado consumidor americano, (ii) a um baixo nível de desemprego, (iii) a aumentos salariais superiores à inflação, e (iv) à reserva de recursos advinda da época da Covid, que ainda está sendo utilizada pelo consumidor para gastos. Esta perspectiva de parada e eventual queda de juros gerou um alívio nos mercados, pois a continuidade das altas taxas exerce efeitos negativos como alta nos custos de empréstimos, menor liquidez global, menor atratividade do dólar americano, dentre outros efeitos. Ainda vemos que, apesar do fim do ciclo ter chegado finalmente, os BCs manterão os juros altos por mais algum tempo, até estarem confortáveis com o nível de inflação girando em torno de 2,0% (hoje em 3,6%), o que já está gerando revisões do crescimento global de 2024 para baixo.

  

MERCADO DOMÉSTICO

No Brasil, apesar da melhora no cenário econômico em 2023 em relação ao esperado (crescimento do PIB em torno de 3%, inflação caindo para 4,3%), e o início do ciclo de queda de juros antes dos desenvolvidos (de 13,75% para 11,75% ao final deste ano), continuamos com o eterno dilema fiscal que limita a continuidade do ciclo de queda de juros. No momento, o mercado precifica uma SELIC em torno de 10% a.a. para 2024. Na parte fiscal, as boas notícias do novo modelo de arcabouço, da reforma tributária parcial (IVA dual) e da melhora da nota/rating pelas agências de crédito internacionais, já estão “precificadas”. Para 2024, a meta de déficit zero estabelecida pelo próprio governo está cada vez mais desacreditada, pois os economistas e agentes de mercado entendem que o esforço fiscal para gerar R$ 168 bilhões de arrecadação não é exequível. Estamos em um governo que tem o hábito gastador e com um viés claramente mais social, com eleições municipais no ano que vem. Com isto, fica limitada a possibilidade do BC brasileiro de baixar a taxa de juros mais velozmente, mesmo que a inflação já se encontre dentro das bandas pré-estabelecidas. Além disso, o Brasil fica bastante dependente do cenário externo e com grande influência nos preços dos ativos locais, como foi claramente o que ocorreu neste mês de novembro.

 

Indicadores do mês

  • Ibovespa            + 12,54%
  • Dólar                    – 2,49%
  • CDI                        + 0,92%
  • IGPM                    + 0,59%

Compartilhe este post

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Preencha esse campo
Preencha esse campo
Digite um endereço de e-mail válido.
Você precisa concordar com os termos para prosseguir

4 × 2 =